domingo, 15 de maio de 2011

Toque de recolher


Dona Vaninha observava a vista privilegiada da sacada de seu apartamento recém adquirido, um dos únicos na Zona Norte que não tinham vista para as favelas. Cansara de viver em casa, cercada de pavor pela simples idéia de um dia ser assaltada. Odiava cachorros e tinha de te-los para a proteção da família. Um desaforo. Antigamente não era assim, dizia, as pessoas não eram tão maldosas.

Há alguns anos, mudou-se para um apartamento no terceiro andar de um edifício pequeno e familiar. Sentiu-se segura pela primeira vez em muito tempo. A vista para a favela a princípio não a incomodava. Dizia às amigas que assim era melhor, que assim ela podia monitorar os bandidos e ter certeza de que eles não a iriam assaltar ou algo pior. E batia três vezes na mesa de madeira. Comprou uma série de binóculos para garantir a vigília. Quando, certa noite, foi acordada pelo primeiro de muitos tiroteios, correu para a janela munida de seu binóculo com visão noturna e assim ficou até cessarem os últimos tiros, mesmo com o marido insistindo para ela voltar para a cama. "Jadir, você é um inútil mesmo. Se não fosse eu protegendo a casa..."

Não tinha filhos. Achava uma temeridade cria-los em uma cidade violenta daquelas. Torcia o nariz quando alguma vizinha vinha lhe contar sobre a última gravidez do bairro. São umas inconsequentes, dizia ajeitando o vinco das calças de algodão. E olhava piedosa para as crianças voltando da escola com suas mochilinhas nas costas. Prontas para o larápio oportuno, segundo ela. Não, não tinha jeito. Dona Vaninha perdia-se em devaneios nostálgicos da época militar: "Só Medici, crianças, só Medici colocaria tudo em ordem de novo. Uma pena..."

Mudou-se para o segundo e atual apartamento após a constatação de um buraco de bala perdida próximo à janela do quarto de dormir. "Jadir, estamos descobertos. Eles já deram o primeiro aviso. Temos que evacuar o apartamento." Ela tanto fez que convenceu o marido a vender seu único motivo de alegria, um fusca 68 azul petróleo, modelo de colecionador, comprado a muito custo pelo pobre aposentado. Assim conseguiram juntar dinheiro para comprar um apartamento sem vista para a favela, em um bairro que Dona Vaninha considerava a Zona Sul da Zona Norte.

E, como sua principal distração de monitorar os bandidos havia acabado, passava as horas apoiada no batente da janela, lixando as unhas e ajeitando os bobes por baixo do lenço de seda florido. Angustiava-se ao ver os carros parados esperando abrirem as portas das garagens. "Que presas fáceis, que presas fáceis!" Vez ou outra, aconselhava os transeuntes a desligarem seus celulares e só usá-los em caso de extrema emergência. E quando via alguém abrindo a carteira no meio da rua, Dona Vaninha ia à loucura e gritava da sacada: "Você está doido? Depois ainda vai chorar na delegacia! Ora, vejam!"

E foi assim durante as primeiras semanas passadas no apartamento, até que Dona Vaninha foi amuando, amuando e resolveu confessar ao marido: "Jadir, estou cansada dessa vida besta. Nada acontece, nenhum tiroteio, nenhum assassinato, nem mesmo uma tentativa de assalto! Jadir, quero voltar para o outro apartamento. Isso não é vida, não é realidade!" E o marido, pela primeira vez em seus 73 anos mal vividos, explodiu de raiva. Descascou a esposa de cabo a rabo e disse que ela procurasse algo para fazer, em vez de ficar aporrinhando o saco (sic).

Dona Vaninha passou três dias sem falar, choramingando pelos cantos, e sequer ousava chegar à janela. Passado o susto e vinda a reflexão, ela foi comunicar ao marido, um pouco sem jeito: "Jadir, você está certo. Estou decidida, já arranjei uma coisa para fazer, para passar o tempo." O marido ficou feliz e satisfeito, pois em 40 anos de casado, nunca vira a mulher fazendo algo a não ser se preocupar com a vida alheia. E ultimamente essa fixação pela violência vinha o incomodando bastante. Então, com a benção do esposo, Dona Vaninha passou a sair todas as noites para um curso de crochê e só voltava lá pelas 22 horas. Quando o marido ousou lhe perguntar se não achava perigoso chegar tão tarde em casa, ela o fulminou com um olhar de jararaca e ameaçou voltar à estaca zero. Seu Jadir engoliu seco e decidiu não contrariar a esposa. Tudo era melhor do que aquela obsessão pela violência.

E foi assim que a vida do casal mudou da água para o vinho. O marido não se lembrava de ter visto a mulher tão feliz e atenciosa desde que se casaram. Ela passava as manhãs e as tardes inteiras ao lado do esposo, conversando e vendo televisão. Seu Jadir achava estranho o fato de ela sempre desligar o aparelho quando começava algum jornal. Mas não questionou, afinal tudo estava indo às mil maravilhas. Até que um dia, aproveitando um cochilo da mulher, seu Jadir resolveu assistir ao noticiário local, tendo o cuidado de colocar o volume bem baixo. Ficou estupefato em constatar que os crimes naquela região haviam crescido em nível alarmante, principalmente à noite e nas proximidades da rua em que moravam. Preocupou-se com a mulher, mas temia fazer voltar tudo à tona se avisasse a ela sobre os altos índices de violência no local. 

Quando Dona Vaninha acordou, achou o marido um tanto estranho. Mesmo assim, trancou-se no banheiro para se arrumar para o curso e, antes de sair, beijou-lhe no rosto ternamente. Seu Jadir não conseguiu relaxar durante aquelas malditas horas em que a esposa estava no curso. Tinha a consciência em desalinho, pois sentia-se culpado por ter influenciado a mulher a sair de casa e, assim, correr perigo nas ruas. Ao mesmo tempo, sabia que nunca fora tão feliz na vida, pois Dona Vaninha esquecera de sua obsessão e voltara-se totalmente a ele. "O que um mero curso de crochê pode fazer na vida de uma pessoa...", ele pensou. De súbito, sentiu uma pontada no coração e uma falta de ar aguda, quando deu pelo fato de nunca, jamais, ter visto a mulher sequer com um novelo ou uma agulha de crochê em casa. Então, ele desfaleceu.

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