quinta-feira, 19 de maio de 2011

A onda perfeita



- Tô na mó bad, véi...

Foi a resposta que Guto deu ao pai, quando indagado sobre o porquê de não aceitar o emprego que o Dr. Figueira arranjara para ele. 

- Mas, filhão, o Dr. Figueira é um dos melhores e mais renomados advogados que já conheci! Como você pode deixar essa oportunidade passar? O escritório dele fica no último andar de um daqueles edifícios espelhados da Avenida Presidente Vargas. É enorme, dá pra se perder lá dentro. Ocupa um andar inteiro, entendeu? Um andar inteiro!

- Shooow...

- Então você topa?

- Qual é, véi? Num pressiona, falô? Se liga na sua que eu me ligo na minha.

Jorge não sabia mais o que fazer. Já tentara de tudo para que o filho se ajeitasse na vida e arranjasse um emprego para se sustentar. Ou pelo menos para ter alguma responsabilidade na vida. Mas Guto só queria saber de surfar. Ficava na praia até o anoitecer e, quando voltava, trancava-se no quarto para ouvir reggae no último volume e navegar na internet. No começo, Jorge incentivava, comprando pranchas e CDs para o filho. Achava que era normal, 'coisa da garotada', que um dia ele iria mudar. Pai solteiro, mimou o rapaz o quanto pode. Mas os anos se passaram e Guto não mudou. Ao contrário, quase não parava mais em casa e, quando o fazia, parecia estar estafado, 'na mó bad'. Jorge tinha dinheiro suficiente para sustentar o filho, mas sua preocupação ia além da questão financeira: Guto estava prestes a completar 30 anos e nunca havia trabalhado até então, sequer feito um bico. Jorge estava começando a se preocupar e resolveu procurar os amigos.

Primeiro procurou o Décio.

- Esse menino não tem mãe, Jorge. Ele deve ter problemas psicológicos, psiquiátricos ou psicodélicos, sei lá. O fato é que ele deve sofrer muito. Falta da presença materna, batata!

- O que você está sugerindo, Décio? Que eu arranje uma namorada?

- Não, Jorge. Eu acho que a solução é colocar o Guto na terapia. Batata!

E Jorge aceitou a sugestão de Décio. Insistiu, insistiu e o filho só concordou com uma única condição: iria escolher o próprio analista. Ok, o pai teve de ceder. Afinal, já era o primeiro passo. Passaram-se meses sem que Jorge percebesse qualquer mudança. Ao contrário, achava o filho cada vez mais cansado. Guto chegava em casa da praia, tomava um banho e dormia. Nem ouvia mais reggae ou ficava na internet. Achou tudo muito estranho. E resolveu acompanhar o filho em uma sessão. Levou um susto quando chegou a um casebre no meio do mato, cheirando a incenso e tempero indiano, cuja recepcionista tinha os cabelos frisados até os pés e uma gota vermelha pintada na testa. Tenso, Jorge recusou o cházinho que ela ofereceu com notável desconfiança e puxou o filho para fora do lugar quando avistou Madame Claudine abrindo a porta do consultório semi-nua.

- Francamente, Guto...

- Pô, véi, é psicologia alternativa, tá ligado?

Jorge não estava nem um pouco ligado. Estava sim ficando desesperado. Resolveu procurar o velho amigo Freitas, um militar reformado cujos filhos eram verdadeiros exemplos de educação e subserviência. Por mais que o próprio Freitas não fosse exemplo de nada.

- Já te falei, Jorge, você dá bobeira com esse rapaz. Comigo é tudo na base do 'sim senhor, não senhor'. Essa é a questão. É pá-pum!

- Então a solução é obrigar o Guto a me chamar de senhor?

- Claro que não, Jorge! Tá vendo? Você é um bunda mole mesmo. É por isso que o garoto defeca na sua cabeça. O problema é que você dá tudo pra esse moleque ingrato e ele fica mal acostumado. Quero ver se você corta a grana dele. Aí não tem jeito, meu camarada, ele vai correr pro emprego.

Com muita dor no coração, Jorge comunicou ao filho que a partir daquele dia não haveria mais mesada. Não adiantava chorar, espernear, fazer chantagem. Pronto, era assim. E se quisesse comer alguma coisa no jantar, que ele próprio fizesse as compras, que arranjasse o dinheiro. Jorge tinha certeza de que aquilo não ia dar certo. Não teria coragem de ver o filho passar fome, isso era o cúmulo. Estava a ponto de desistir quando viu Guto chegar uma noite cheio de compras do mercado. Ficou pasmo. E seguiram-se os dias, com o filho abastecendo a despensa, comprando roupas e acessórios para o surf e até um presente para o pai. Jorge não estava acreditando, era bom demais para ser verdade. Só não entendia uma coisa: se o filho passava o dia todo na praia e à noite estava em casa, a que horas ele trabalhava? Concluiu que ele trabalhava na praia e ficou mais tranquilo. Mas começou a achar estranho quando vieram as visitas noturnas de vários marmanjos em sua casa, por mais rápidas que elas fossem. Era um tal de entra e sai de rapazes de tudo quanto é tipo, a qualquer hora da noite e até de madrugada. Suspeitoso, resolveu atender o celular do filho enquanto ele estava no banho.

- Alô...

- Guto?

- A-ham...

- Qual é a da erva maldita? Rapá! O Meleca falou que tu tá com uma das brabas aí.

- Guuuuuuuuuuuuuuuuutooooooooooooooo!

Jorge estava fora de si, enquanto o filho tirava de uma caixa de sapatos um tablete de maconha que mais parecia uma fita VHS. O que fazer, meu Deus? Coloca-lo de castigo? Dar uma palmada no seu traseiro? Denuncia-lo para a polícia por tráfico de drogas? Só de pensar em ver seu filho preso, entregue às baratas e aos bandidos, Jorge tremia. 

- Queima isso, meu filho, queima isso!

- Demorô, véi...

- Não! Pelo amor de Deus, o que você está fazendo? Joga isso fora! Joga na privada!

- Vai entupir, sacô?

- Então joga pela janela, sei lá, engole! Não! Não engole. Só some com isso da minha frente.

- Beleza, véi. Perdi. Vô batê pro Caroço pra ele vir aqui buscar a Maria Joana.

- Buscar quem?

Jorge estava a ponto de explodir. Tudo culpa do Freitas. Como ele foi dar ouvidos àquele milico ditador insano? Se não tivesse cortado a mesada de Guto nada disso teria acontecido. Estava decidido: mais do que nunca, precisava dar um jeito no filho. E então, remexendo em suas memórias, lembrou-se de um velho amigo de infância, por quem sempre teve muito respeito e admiração. Luis Cláudio era daquelas pessoas a se procurar quando tudo dava errado. Ele sempre tinha conselhos guardados nas mangas, falava coisas incríveis. Resolveu ligar para o amigo.

- Jorge, fica calmo. Tudo tem solução. Até um relógio parado marca duas vezes a hora certa no dia. O que você precisa entender é que talvez o amor que sente pelo seu filho esteja sufocando toda e qualquer tentativa de ele se entender como um verdadeiro homem. Para que o pintinho vai sair de perto da galinha se ali ele encontra comida, segurança e aconchego?

- LC, realmente não entendi... Dá pra ser mais direto?

- Você tem que ser blasé, meu amigo, fingir que ele não te interessa. Nada melhor do que o descaso para dar um sopapo na alma do outro. É uma alavanca para ele ter vontade própria de se destacar, de se mostrar para você, buscando o amor escondido no seu peito.

Jorge levou a noite inteira acordado, pensando e tentando entender o que o amigo lhe dissera. Mas confiava no Luis Cláudio e estava disposto a tentar. Afinal, não tinha mais nada a perder. E a partir da manhã seguinte, passou a ignorar o filho. Não puxava assunto, não respondia às suas perguntas, evitava ficar no mesmo espaço que ele e, por fim, parou de olhar para Guto, como se ele fosse invisível. É verdade que chorava baixinho todas as noites, afundado no travesseiro. Mas sentia que o filho já estava abalado e iria até o fim. Certa noite, Guto não voltou para casa. Nem na manhã seguinte, nem nos dias seguintes. Jorge ficou desesperado e ligou para todos os amigos do filho. Então, conseguiu a muito custo arrancar de Meleca o endereço onde Guto se encontrava. Aliviado por saber que o filho estava bem, pegou o carro e dirigiu até o local. Teve de estacionar em uma porteira e seguir a pé até uma mata fechada, onde parou intrigado. Segundos depois, surgiu um anãozinho barbado do meio da mata e perguntou:

- Qual é a senha?

- Senha?

- É, mané! Qual é a senha?

- Não sei, só vim buscar meu filho, o Guto, você conhece? Ele é moren...

- Olha aqui, camarada, vou ser breve. Sem senha, sem entrada. Falou? Pela última vez, qual é a senha?

- Ma... ri... Mariana?

- Beleza, me segue aí. Vamô que vamô!

Entraram mata a dentro por uma trilha finíssima, na qual o anãozinho se saía perfeitamente, mas ele mais parecia um gigante em Gulliver. Passaram por uma ponte que terminava com uma placa escrita à caneta pilot: Comunidade do Paraíso Astral. Aquilo não estava cheirando bem. Jorge passava lentamente da angustia para a irritação. A mata se abriu em um enorme clarão, onde havia inúmeras barracas de camping espalhadas, mulheres confeccionando colares de conchas e penteando os cabelos com os dedos, homens deitados em redes e crianças de pés descalços e corpinhos sujos. Quase uma aldeia indígena, se não fosse pela raça de seus integrantes. Procurando por Guto, não foi difícil encontra-lo em meio a uma roda de pessoas que pareciam ter acabado de servir o almoço. Pegando um toco de madeira do chão, Jorge correu até o filho, ameaçando os demais com a arma improvisada e uma ridícula posição de carateca aposentado.

- Não coma isso, Guto! Largue essa tigela no chão agora.

- Véi! Que cê tá fazendo aqui, cara?

- Vim te salvar, meu filho. Não escute o que essas pessoas estão te dizendo. Elas te enfeitiçaram. Essa gororoba aí deve estar cheia de sedativos.

- Relaxa, véi. Aqui todo mundo é da paz. A comunidade pratica o amor mútuo e incondicional, numa conectividade com a Mãe Terra e o Planeta Zyon...

- Guto, levanta! Vem, vem comigo. Ninguém se aproxima senão eu mato!

E saiu carregando o filho pelo braço, embolando-se pela mata. Levaram mais de duas horas para encontrar enfim a porteira e o carro estacionado. O anãozinho não fez mais que olhar de cara feia para os dois. Jorge dirigiu esbaforido de volta para casa, Guto não deu uma palavra. Os dois se jogaram na cama, exaustos, e dormiram até o dia seguinte. Jorge acordou satisfeito. Cutucou o filho e falou:

- Guto, hoje eu tive um sonho que me revelou a verdade. Já sei o que fazer de hoje em diante para que nossa vida dê certo. Coloca a bermuda e vamos pra praia. Mas pega uma prancha extra, porque hoje eu vou aprender a surfar com você, meu filho. 

........

Alguns meses depois, Décio recebe uma ligação:

- Décio, sou eu, Guto, filho do Jorge. Você tem que me ajudar, por favor. Não aguento mais! Meu pai só quer saber de surfar, fica na praia o dia todo, não trabalha mais. O que é que eu faço, Décio?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Além da Avenida Atlântica


Já havia mais de meia hora que Dona Eulália estava na fila das Casas Lotéricas em Copacabana, apertando contra o peito suas cartelas de aposta para a Mega Sena, acumulada em seis milhões de reais. Toda vez que pensava no prêmio, tinha arrepios e roía as unhas das mãos. A pensão que recebia do falecido Tenório não era ruim, mas não lhe dava a oportunidade de, por exemplo, relaxar os fios dos cabelos rebeldes ou de ir ao cinema nos finais de semana. Fazia compras no mercado, pagava o condomínio e as contas do mês e sobrava um pouquinho de nada, que vez ou outra ela colocava em um envelope e mandava pelos Correios para o sobrinho em Aracaju. Passava as tardes fofocando com as amigas de bairro, sempre no mesmo banco da praça Serzedelo Correia. Mas sonhava em se mudar para o Leblon e almoçar nos restaurantes chiques que ela vira pela janela do ônibus, em uma das vezes que teve de levar a vizinha no hospital Miguel Couto. 'Seis milhões de reais', ela pensou mais uma vez, 'tenho que ganhar de qualquer jeito'. E sentiu o coração palpitar como as batidas das músicas que tocavam na boate embaixo de seu apartamento. Precisava se acalmar.

Havia um silêncio coletivo na fila, um clima de desconfiança mútua, como se todos se vissem não apenas como concorrentes ao desejado prêmio, mas como verdadeiros inimigos. Dona Eulália tentou puxar papo com um senhor de cabelos pintados e sobrancelha grisalha, que estava logo à sua frente, mas ele se fingiu de surdo - ou quem sabe era mesmo. Não satisfeita, virou-se para trás e perguntou as horas para uma mulher embalada à vácuo em um vestido rosa pink, na tentativa de começar um diálogo. Mas a mulher simplesmente apontou com desdém o relógio logo acima dos caixas da Casa Lotérica. Dona Eulália ainda tentou discorrer sobre o tempo, aquele calor insuportável do qual os ventiladores eram meros coadjuvantes para abafar ainda mais o ambiente. Ninguém respondeu. Então, Dona Eulália resolveu usar sua cartada de mestre, que nunca falhava. Se era para jogar sujo, melhor que fosse por um bom motivo. E que melhor motivo do que seis milhões de reais? Ajeitou o grampo que soltava dos cabelos, pigarreou para limpar a garganta e disparou ao léu:

Copacabana é uma loucura. Já repararam no trânsito ultimamente? É uma terra de Marlboro, minha gente! Se vocês moram por aqui, sabem do que estou falando. Quantos acidentes vocês presenciam por semana? Eu morro de medo. Fico aqui nessa fila na calçada, mas morro de medo. Esses dias eu vi um homem ser atropelado na fila do INSS. Vê se pode, coitado! A gente tem que tomar o maior cuidado e ter bons reflexos para se esquivar de um carro desgovernado. Cansa de acontecer por aqui. Eu vejo toda hora da minha janela. Por isso não saio muito de casa. É um perigo, um pe-ri-go!

As pessoas da fila já começavam a se remexer, olhando vez ou outra para Dona Eulália, curiosos com aquela narrativa. Alguns tomaram um leve susto quando um carro parou para estacionar enquanto ela falava. Um ou outro concordou com a cabeça. E Dona Eulália, visivelmente insatisfeita, continuou:

- E as mulheres da vida? Meu Jesus amado, é uma vergonha! Na minha igreja falam tanto... Elas ficam passeando por aí, exibindo o corpo com umas roupas que, valha-me Deus, não tapam nem o que deviam tapar. Culpa desses turistas! Fica essa pouca vergonha aos olhos das pessoas de bem, das pessoas corretas. Roubam os maridos da gente, tentam os nossos filhos. E a gente ainda tem que fingir que é tudo normal. No meu prédio dizem que mora uma, pode? E eu acho que mora mesmo, porque escuto uns barulhos, uns gritos, sabe? A gente tem que conviver com elas em qualquer lugar. Onde é que nós estamos? Onde está nossa moral?

Um clima de desconforto começava a se formar. A mulher de vestido pink cruzou os braços, bamboleou os quadris e foi embora batendo forte com o salto na calçada de pedras portuguesas, para a felicidade de Dona Eulália. Quatro mães deixaram a fila revoltosas, tapando os ouvidos das crianças. Mais confiante, a língua afiada não parou:

- Os trombadinhas estão cada vez mais ousados. Esses dias, quando fui fechar a janela, tinha um marmanjo quase entrando na minha sala. É mole? Aqui ainda é pior, porque não tem policiamento. A senhora já viu algum policial por essas bandas? Não? E o senhor? Pois é, estou falando! Eu não vi um policial sequer enquanto estava aqui na fila. E trombadinhas, quantos vocês viram? Uma porção, né? Eles vivem em bando, mas atacam solitários. Olha um ali! Outrozinho lá do lado da igreja. Tá cheio! Se eu fosse a senhora, não andava com esse colar. A bolsa, também, a bolsa é um perigo. Só debaixo do braço. E o senhor, com esse celular na cintura: é tesouro pra Ali Baba. Essa fila aqui é um prato cheio pra eles. Copacabana está assim, não se pode mais andar sossegado.

Inconscientemente algumas mulheres puxaram as bolsas para mais perto do corpo. O senhor colocou discretamente a blusa por cima do celular. Cerca de meia dúzia de pessoas, com olhos arregalados, saíram da fila andando apressadas. Resoluta, Dona Eulália continuou, mais ousada:

- Trombadinha é pouco. E a bandidagem que desceu os morros? Agora, meus amigos, a gente está à mercê de ex-traficantes que não têm de onde tirar dinheiro e vêm fazer o salário com a gente. Vieram para Copacabana, por causa dos turistas. Mas o morador é que sofre. E dinheiro não é nada, eles querem mais! Estão com tanta raiva que não se contentam só em nos assaltar. Eles torturam, estupram e até matam. Nesse exato momento deve ter algum só de olho na gente, escolhendo a próxima vítima. Eu bem que sei!

Mais um punhado de pessoas deixou a fila, que diminuiu consideravelmente desde que Dona Eulália começara a falar. Só restavam, parcamente enfileirados, aqueles que não se abalaram com suas constatações, provavelmente moradores de Copacabana tão antigos quanto ela, acostumados e resignados com as chagas do bairro. Ela poderia muito bem se considerar satisfeita com o resultado, mas queria que  todos fossem embora e a deixassem apostar sozinha. Aqueles seis milhões de reais seriam uma dádiva e realizariam seu sonho de morar no Leblon. Faria qualquer coisa para ganhar o prêmio. Mas seria difícil vencer aquele grupo de 'cascas grossas', como ela mesmo se denominava. Pensou por instantes o que poderia falar de tão incomum para afasta-los dali. Então, veio-lhe a luz. Respirando fundo, Dona Eulália decidiu usar um golpe baixo e, antecipando a vitória com um meio sorriso, não hesitou:

- E os bueiros que explodem?


Não precisou terminar. Entrou contente e exultante para fazer suas apostas, sem viva alma a seu redor. Quem a olhasse, diria que acabara de ganhar na Mega Sena.

Mais um


Em volta do pequeno caixão branco fincado no meio da capelinha mortuária, amontoavam-se dezenas de pessoas de todas as raças, gêneros e condições sociais. Mulheres de short e chinelo contrastavam com damas de tailleur encorpado. Mãos calejadas se cruzavam em oração do mesmo modo que unhas de esmerada pintura. Prantos exagerados e desmaios súbitos de um lado, meneios de cabeça e rostos cobertos por óculos escuros de outro. O velório mais parecia uma cena de teatro burlesco.

Diante de tamanho espetáculo, Dona Joana passava despercebida, serena dentro de seu puído vestidinho azul marinho, o mesmo que usava em todos os enterros de familiares e amigos. O semblante tranquilo mostrava plena experiência em lidar com tragédias, incontáveis ao longo de seus 87 anos. Parecia compreender o sentido da morte e olhava impassível o neto jazendo em meio àquela multidão desconhecida. Só com muita observação e astúcia alguém poderia concluir que havia uma centelha de sentimento desgostoso naquele olhar quase pueril.

Ela não entendia o que tinha de diferente na morte de seu neto Renan para justificar tamanho alarido social. Tantos netos já perdera para Deus, mais novos e mais velhos do que aquele, em condições semelhantes ou piores do que a atual. E todos foram enterrados da mesma forma: com a dor dos poucos membros da família e a cerimônia do Padre Argemiro. Agora, nem mesmo o Padre Argemiro estava à frente do velório. Alguém chamara um outro padre, com voz vigorosa e batina de branco impecável, que Dona Joana nem conhecia.

Quando a multidão se cansou e resolveu se afastar do pequeno caixão, Dona Joana aproveitou para se aproximar. A poucos passos de chegar, foi impedida por um jovem engravatado cheirando a perfume caro, que sussurrou em seu ouvido: 'Dá licença, minha querida, que o senhor Prefeito está vindo. Rápido, sim? Por favor, por favor!' E Dona Joana retornou resignada para seu canto enquanto a multidão se refazia dentro da capela. Em determinado momento, teve de ceder seu banquinho de plástico para que um câmera-man conseguisse uma imagem melhor. Sentiu-se sufocar e pediu que a amparassem até o lado de fora da capela, para que pudesse tomar ar fresco. E só retornou quando avistou o Prefeito saindo, seguido de uma horda de assessores, jornalistas e pessoas bem vestidas.

A capela estava vazia em comparação aos minutos anteriores e Dona Joana foi se chegando até o caixão. Enfim, pode contemplar o rosto encerado do pequeno Renan, cujas bochechas estavam tão maquiadas que parecia ter acabado de jogar futebol com os coleguinhas. Quando Dona Joana puxou o terço do bolso do vestido para começar a orar, alguns homens se aproximaram e fecharam a tampa do caixão. Uma música triste soou e os homens saíram levando o pequeno Renan, seguidos pelo elegante Prefeito e pelo cortejo de desconhecidos. Dona Joana teve de apertar os passos dificultosos para acompanhar a comitiva fúnebre.

Chegando ao sepulcro, jornalistas se amontoaram para conseguir boas imagens, enquanto um grupo de populares gritava pela paz empunhando cartazes feitos às pressas. Diante do caixão branco, o Prefeito e seus acompanhantes enfileirados faziam cara de desolação. Dona Joana ainda não tinha conseguido chegar ao jazigo quando baixaram o caixão. Teve tempo apenas de arrancar uma pequena flor amarela que nascia entre o cimento e joga-la na cova, fazendo o sinal da cruz. E foi a única que permaneceu até o último grão de terra ser depositado sobre os restos mortais de Renan, tentando se concentrar na oração, por mais que a entrevista do Prefeito a atrapalhasse.

E quando o cemitério já estava em respeitoso silêncio e ela pode, enfim, despedir-se do neto com sinceridade, os poucos jornalistas que restavam no local prestaram atenção naquela pobre senhora de vestidinho puído. Um deles correu até Dona Joana e perguntou se ela era parente do menino morto. 'Sou a avó', disse depois de um silêncio. Então, o rapaz se ajeitou dentro do terno, contou pausadamente até três e disparou, enfiando o microfone na boca de Dona Joana: 'Estamos aqui com a avó do pequeno Renan, falecido ontem na troca de tiros entre bandidos e polícia em uma operação na favela da Sardinha. O que a senhora tem a dizer sobre tudo isso?' E ela, afastando delicadamente o microfone de seu rosto, disse baixinho: 'O Renan morreu, seu moço, só isso.'

domingo, 15 de maio de 2011

Toque de recolher


Dona Vaninha observava a vista privilegiada da sacada de seu apartamento recém adquirido, um dos únicos na Zona Norte que não tinham vista para as favelas. Cansara de viver em casa, cercada de pavor pela simples idéia de um dia ser assaltada. Odiava cachorros e tinha de te-los para a proteção da família. Um desaforo. Antigamente não era assim, dizia, as pessoas não eram tão maldosas.

Há alguns anos, mudou-se para um apartamento no terceiro andar de um edifício pequeno e familiar. Sentiu-se segura pela primeira vez em muito tempo. A vista para a favela a princípio não a incomodava. Dizia às amigas que assim era melhor, que assim ela podia monitorar os bandidos e ter certeza de que eles não a iriam assaltar ou algo pior. E batia três vezes na mesa de madeira. Comprou uma série de binóculos para garantir a vigília. Quando, certa noite, foi acordada pelo primeiro de muitos tiroteios, correu para a janela munida de seu binóculo com visão noturna e assim ficou até cessarem os últimos tiros, mesmo com o marido insistindo para ela voltar para a cama. "Jadir, você é um inútil mesmo. Se não fosse eu protegendo a casa..."

Não tinha filhos. Achava uma temeridade cria-los em uma cidade violenta daquelas. Torcia o nariz quando alguma vizinha vinha lhe contar sobre a última gravidez do bairro. São umas inconsequentes, dizia ajeitando o vinco das calças de algodão. E olhava piedosa para as crianças voltando da escola com suas mochilinhas nas costas. Prontas para o larápio oportuno, segundo ela. Não, não tinha jeito. Dona Vaninha perdia-se em devaneios nostálgicos da época militar: "Só Medici, crianças, só Medici colocaria tudo em ordem de novo. Uma pena..."

Mudou-se para o segundo e atual apartamento após a constatação de um buraco de bala perdida próximo à janela do quarto de dormir. "Jadir, estamos descobertos. Eles já deram o primeiro aviso. Temos que evacuar o apartamento." Ela tanto fez que convenceu o marido a vender seu único motivo de alegria, um fusca 68 azul petróleo, modelo de colecionador, comprado a muito custo pelo pobre aposentado. Assim conseguiram juntar dinheiro para comprar um apartamento sem vista para a favela, em um bairro que Dona Vaninha considerava a Zona Sul da Zona Norte.

E, como sua principal distração de monitorar os bandidos havia acabado, passava as horas apoiada no batente da janela, lixando as unhas e ajeitando os bobes por baixo do lenço de seda florido. Angustiava-se ao ver os carros parados esperando abrirem as portas das garagens. "Que presas fáceis, que presas fáceis!" Vez ou outra, aconselhava os transeuntes a desligarem seus celulares e só usá-los em caso de extrema emergência. E quando via alguém abrindo a carteira no meio da rua, Dona Vaninha ia à loucura e gritava da sacada: "Você está doido? Depois ainda vai chorar na delegacia! Ora, vejam!"

E foi assim durante as primeiras semanas passadas no apartamento, até que Dona Vaninha foi amuando, amuando e resolveu confessar ao marido: "Jadir, estou cansada dessa vida besta. Nada acontece, nenhum tiroteio, nenhum assassinato, nem mesmo uma tentativa de assalto! Jadir, quero voltar para o outro apartamento. Isso não é vida, não é realidade!" E o marido, pela primeira vez em seus 73 anos mal vividos, explodiu de raiva. Descascou a esposa de cabo a rabo e disse que ela procurasse algo para fazer, em vez de ficar aporrinhando o saco (sic).

Dona Vaninha passou três dias sem falar, choramingando pelos cantos, e sequer ousava chegar à janela. Passado o susto e vinda a reflexão, ela foi comunicar ao marido, um pouco sem jeito: "Jadir, você está certo. Estou decidida, já arranjei uma coisa para fazer, para passar o tempo." O marido ficou feliz e satisfeito, pois em 40 anos de casado, nunca vira a mulher fazendo algo a não ser se preocupar com a vida alheia. E ultimamente essa fixação pela violência vinha o incomodando bastante. Então, com a benção do esposo, Dona Vaninha passou a sair todas as noites para um curso de crochê e só voltava lá pelas 22 horas. Quando o marido ousou lhe perguntar se não achava perigoso chegar tão tarde em casa, ela o fulminou com um olhar de jararaca e ameaçou voltar à estaca zero. Seu Jadir engoliu seco e decidiu não contrariar a esposa. Tudo era melhor do que aquela obsessão pela violência.

E foi assim que a vida do casal mudou da água para o vinho. O marido não se lembrava de ter visto a mulher tão feliz e atenciosa desde que se casaram. Ela passava as manhãs e as tardes inteiras ao lado do esposo, conversando e vendo televisão. Seu Jadir achava estranho o fato de ela sempre desligar o aparelho quando começava algum jornal. Mas não questionou, afinal tudo estava indo às mil maravilhas. Até que um dia, aproveitando um cochilo da mulher, seu Jadir resolveu assistir ao noticiário local, tendo o cuidado de colocar o volume bem baixo. Ficou estupefato em constatar que os crimes naquela região haviam crescido em nível alarmante, principalmente à noite e nas proximidades da rua em que moravam. Preocupou-se com a mulher, mas temia fazer voltar tudo à tona se avisasse a ela sobre os altos índices de violência no local. 

Quando Dona Vaninha acordou, achou o marido um tanto estranho. Mesmo assim, trancou-se no banheiro para se arrumar para o curso e, antes de sair, beijou-lhe no rosto ternamente. Seu Jadir não conseguiu relaxar durante aquelas malditas horas em que a esposa estava no curso. Tinha a consciência em desalinho, pois sentia-se culpado por ter influenciado a mulher a sair de casa e, assim, correr perigo nas ruas. Ao mesmo tempo, sabia que nunca fora tão feliz na vida, pois Dona Vaninha esquecera de sua obsessão e voltara-se totalmente a ele. "O que um mero curso de crochê pode fazer na vida de uma pessoa...", ele pensou. De súbito, sentiu uma pontada no coração e uma falta de ar aguda, quando deu pelo fato de nunca, jamais, ter visto a mulher sequer com um novelo ou uma agulha de crochê em casa. Então, ele desfaleceu.

Ladeira do Sol

Desce a ladeira correndo, de olhos fechados e sorriso largo no rosto ainda amassado do sono. Sente o vento frio de uma manhã que ainda não raiou na favela. Não vê a hora de aparecer o sol. Corre cada vez mais rápido, sem medo de cair, achando que pode voar. Só abre os olhos quando tropeça em alguém e escuta um palavrão. Não pede desculpas, retruca com outro impropério, o mais sujo que encontra em seu vocabulário pouco extenso. Mostra o dedo do meio e sai correndo outra vez, ainda sorrindo. 


Tem apenas seis anos, mas se acha o dono da verdade. Ninguém era páreo para aquele pingo de gente que fazia o que queria. Não tinha jeito, as pessoas comentavam. A avó tinha certeza de que ele era filho do Demo e benzia o garoto com um pavor explícito no rosto cansado: 'que Jesus te proteja, menino, das coisas ruins que te cercam'. Muita coisa ele não entendia, mas tinha certeza de que um dia iria entender.

Chega ao ponto do ônibus e coloca a camisa da escola pública pelo avesso. Limpa o nariz escorrendo com a gola alargada e rasgada. Faz sinal para o ônibus, que não pára. Nunca pára. Xinga baixinho e chuta uma pedra perdida no asfalto. Dá a língua para um menino mais novo e faz careta. Ouve o estômago roncar e ri baixinho. Tenta imitar o barulho, mas não consegue. Lembra que, se não chegar a tempo, vai perder o café da manhã na escola. Resolve ir andando, está com fome. 

Observa o sol saindo de trás de um barraco no alto da favela. Era lindo, ele achava. Um dia ainda seria o dono daquele morro todo e pegaria o sol só para ele. Ai de quem duvidasse. Senta no chão de terra e risca uma cruz com precisão infantil. Lembra-se da mãe e das surras que levava de madrugada, quando ela voltava bêbada da rua. Só paravam quando o sol aparecia. Olha para as cicatrizes nos braços. Esfrega as marcas com toda a força até ficarem vermelhas. A mãe nunca saía do corpo dele. Um dia a avó disse que ela virou uma estrelinha no céu. Então ele nunca mais gostou da noite, só do dia e do sol. Tinha raiva, muita raiva. De todo o mundo, menos da avó. Ele não entendia, mas tinha muita raiva.

Deita no chão e toma um punhado de terra nas mãos. Lentamente, vai soltando os grãos sobre os cabelos em carapinha. Pega mais um punhado de terra, dessa vez maior. Fecha os olhos e esfrega as mãos empoeiradas pelo rosto, quase em transe, como uma espécie de ritual. Sente-se sufocar e tosse. Depois cai na gargalhada. Levanta-se e volta a andar. 

Chega à escola e o inspetor o arrasta pelo braço. Reconhece a sala da diretora. Espera sentado no banco de madeira quebrado. Esmaga uma pequena aranha com o dedo indicador e ri. Depois prova o sabor do animal morto e faz uma cara feia. A diretora chega e começa a falar: sujeira, piolhos, camisa rasgada, nariz escorrendo, chinelos, blá, blá, blá. Ele pergunta se já pode tomar o café da manhã. 'Você não entende? Sua mãe não te dá educação?' O pequeno se ergue como um gigante e, fora de si, dispara socos contra o abdome da mulher insolente. Sai correndo, esquiva-se do inspetor e põe-se em disparada para fora dos muros da escola. Não, ele não entende. Mas um dia vai entender.

Corre de olhos fechados pelo meio da rua até se cansar. Tira a camisa da escola e a joga em um terreno baldio. Abre a pequena mochila e despeja todo o material em cima da calçada, enquanto anda de volta para casa. De peito nu, sobe devagar a ladeira da favela. Olha para os últimos barracos no topo do morro e decide: vou pegar o sol. Dessa vez não tem pressa, caminha olhando com fascínio para o astro luminoso, como se estivesse hipnotizado. Só volta a si quando ouve o som saindo de suas entranhas. A fome tentando falar. 

E quando consegue chegar bem no alto, onde jamais estivera antes, percebe que o sol não está mais lá. Em seu lugar, observa vários homens e meninos, passeando orgulhosos com suas armas. Reluzentes, grandes e potentes como o sol. Assustado e curioso, o menino senta na calçada. Um dos homens armados se aproxima, passa a mão em sua cabeça e solta uma grande gargalhada amistosa. Todos os outros se voltam para o menino e sorriem, alguns acenam. Um adolescente magro retira os óculos escuros da própria testa e os coloca no rosto do garoto. 'Toma cuidado com o sol, moleque. Ele pode te cegar.' Foi então que o menino entendeu tudo. E nunca mais esqueceu.




* Quadro de Vanessa Lima (http://vanessalimaportaldearte.blogspot.com/)