Foi a resposta que Guto deu ao pai, quando indagado sobre o porquê de não aceitar o emprego que o Dr. Figueira arranjara para ele.
- Mas, filhão, o Dr. Figueira é um dos melhores e mais renomados advogados que já conheci! Como você pode deixar essa oportunidade passar? O escritório dele fica no último andar de um daqueles edifícios espelhados da Avenida Presidente Vargas. É enorme, dá pra se perder lá dentro. Ocupa um andar inteiro, entendeu? Um andar inteiro!
- Shooow...
- Então você topa?
- Qual é, véi? Num pressiona, falô? Se liga na sua que eu me ligo na minha.
Jorge não sabia mais o que fazer. Já tentara de tudo para que o filho se ajeitasse na vida e arranjasse um emprego para se sustentar. Ou pelo menos para ter alguma responsabilidade na vida. Mas Guto só queria saber de surfar. Ficava na praia até o anoitecer e, quando voltava, trancava-se no quarto para ouvir reggae no último volume e navegar na internet. No começo, Jorge incentivava, comprando pranchas e CDs para o filho. Achava que era normal, 'coisa da garotada', que um dia ele iria mudar. Pai solteiro, mimou o rapaz o quanto pode. Mas os anos se passaram e Guto não mudou. Ao contrário, quase não parava mais em casa e, quando o fazia, parecia estar estafado, 'na mó bad'. Jorge tinha dinheiro suficiente para sustentar o filho, mas sua preocupação ia além da questão financeira: Guto estava prestes a completar 30 anos e nunca havia trabalhado até então, sequer feito um bico. Jorge estava começando a se preocupar e resolveu procurar os amigos.
Primeiro procurou o Décio.
- Esse menino não tem mãe, Jorge. Ele deve ter problemas psicológicos, psiquiátricos ou psicodélicos, sei lá. O fato é que ele deve sofrer muito. Falta da presença materna, batata!
- O que você está sugerindo, Décio? Que eu arranje uma namorada?
- Não, Jorge. Eu acho que a solução é colocar o Guto na terapia. Batata!
E Jorge aceitou a sugestão de Décio. Insistiu, insistiu e o filho só concordou com uma única condição: iria escolher o próprio analista. Ok, o pai teve de ceder. Afinal, já era o primeiro passo. Passaram-se meses sem que Jorge percebesse qualquer mudança. Ao contrário, achava o filho cada vez mais cansado. Guto chegava em casa da praia, tomava um banho e dormia. Nem ouvia mais reggae ou ficava na internet. Achou tudo muito estranho. E resolveu acompanhar o filho em uma sessão. Levou um susto quando chegou a um casebre no meio do mato, cheirando a incenso e tempero indiano, cuja recepcionista tinha os cabelos frisados até os pés e uma gota vermelha pintada na testa. Tenso, Jorge recusou o cházinho que ela ofereceu com notável desconfiança e puxou o filho para fora do lugar quando avistou Madame Claudine abrindo a porta do consultório semi-nua.
- Francamente, Guto...
- Pô, véi, é psicologia alternativa, tá ligado?
Jorge não estava nem um pouco ligado. Estava sim ficando desesperado. Resolveu procurar o velho amigo Freitas, um militar reformado cujos filhos eram verdadeiros exemplos de educação e subserviência. Por mais que o próprio Freitas não fosse exemplo de nada.
- Já te falei, Jorge, você dá bobeira com esse rapaz. Comigo é tudo na base do 'sim senhor, não senhor'. Essa é a questão. É pá-pum!
- Então a solução é obrigar o Guto a me chamar de senhor?
- Claro que não, Jorge! Tá vendo? Você é um bunda mole mesmo. É por isso que o garoto defeca na sua cabeça. O problema é que você dá tudo pra esse moleque ingrato e ele fica mal acostumado. Quero ver se você corta a grana dele. Aí não tem jeito, meu camarada, ele vai correr pro emprego.
Com muita dor no coração, Jorge comunicou ao filho que a partir daquele dia não haveria mais mesada. Não adiantava chorar, espernear, fazer chantagem. Pronto, era assim. E se quisesse comer alguma coisa no jantar, que ele próprio fizesse as compras, que arranjasse o dinheiro. Jorge tinha certeza de que aquilo não ia dar certo. Não teria coragem de ver o filho passar fome, isso era o cúmulo. Estava a ponto de desistir quando viu Guto chegar uma noite cheio de compras do mercado. Ficou pasmo. E seguiram-se os dias, com o filho abastecendo a despensa, comprando roupas e acessórios para o surf e até um presente para o pai. Jorge não estava acreditando, era bom demais para ser verdade. Só não entendia uma coisa: se o filho passava o dia todo na praia e à noite estava em casa, a que horas ele trabalhava? Concluiu que ele trabalhava na praia e ficou mais tranquilo. Mas começou a achar estranho quando vieram as visitas noturnas de vários marmanjos em sua casa, por mais rápidas que elas fossem. Era um tal de entra e sai de rapazes de tudo quanto é tipo, a qualquer hora da noite e até de madrugada. Suspeitoso, resolveu atender o celular do filho enquanto ele estava no banho.
- Alô...
- Guto?
- A-ham...
- Qual é a da erva maldita? Rapá! O Meleca falou que tu tá com uma das brabas aí.
- Guuuuuuuuuuuuuuuuutooooooooooooooo!
Jorge estava fora de si, enquanto o filho tirava de uma caixa de sapatos um tablete de maconha que mais parecia uma fita VHS. O que fazer, meu Deus? Coloca-lo de castigo? Dar uma palmada no seu traseiro? Denuncia-lo para a polícia por tráfico de drogas? Só de pensar em ver seu filho preso, entregue às baratas e aos bandidos, Jorge tremia.
- Queima isso, meu filho, queima isso!
- Demorô, véi...
- Não! Pelo amor de Deus, o que você está fazendo? Joga isso fora! Joga na privada!
- Vai entupir, sacô?
- Então joga pela janela, sei lá, engole! Não! Não engole. Só some com isso da minha frente.
- Beleza, véi. Perdi. Vô batê pro Caroço pra ele vir aqui buscar a Maria Joana.
- Buscar quem?
Jorge estava a ponto de explodir. Tudo culpa do Freitas. Como ele foi dar ouvidos àquele milico ditador insano? Se não tivesse cortado a mesada de Guto nada disso teria acontecido. Estava decidido: mais do que nunca, precisava dar um jeito no filho. E então, remexendo em suas memórias, lembrou-se de um velho amigo de infância, por quem sempre teve muito respeito e admiração. Luis Cláudio era daquelas pessoas a se procurar quando tudo dava errado. Ele sempre tinha conselhos guardados nas mangas, falava coisas incríveis. Resolveu ligar para o amigo.
- Jorge, fica calmo. Tudo tem solução. Até um relógio parado marca duas vezes a hora certa no dia. O que você precisa entender é que talvez o amor que sente pelo seu filho esteja sufocando toda e qualquer tentativa de ele se entender como um verdadeiro homem. Para que o pintinho vai sair de perto da galinha se ali ele encontra comida, segurança e aconchego?
- LC, realmente não entendi... Dá pra ser mais direto?
- Você tem que ser blasé, meu amigo, fingir que ele não te interessa. Nada melhor do que o descaso para dar um sopapo na alma do outro. É uma alavanca para ele ter vontade própria de se destacar, de se mostrar para você, buscando o amor escondido no seu peito.
Jorge levou a noite inteira acordado, pensando e tentando entender o que o amigo lhe dissera. Mas confiava no Luis Cláudio e estava disposto a tentar. Afinal, não tinha mais nada a perder. E a partir da manhã seguinte, passou a ignorar o filho. Não puxava assunto, não respondia às suas perguntas, evitava ficar no mesmo espaço que ele e, por fim, parou de olhar para Guto, como se ele fosse invisível. É verdade que chorava baixinho todas as noites, afundado no travesseiro. Mas sentia que o filho já estava abalado e iria até o fim. Certa noite, Guto não voltou para casa. Nem na manhã seguinte, nem nos dias seguintes. Jorge ficou desesperado e ligou para todos os amigos do filho. Então, conseguiu a muito custo arrancar de Meleca o endereço onde Guto se encontrava. Aliviado por saber que o filho estava bem, pegou o carro e dirigiu até o local. Teve de estacionar em uma porteira e seguir a pé até uma mata fechada, onde parou intrigado. Segundos depois, surgiu um anãozinho barbado do meio da mata e perguntou:
- Qual é a senha?
- Senha?
- É, mané! Qual é a senha?
- Não sei, só vim buscar meu filho, o Guto, você conhece? Ele é moren...
- Olha aqui, camarada, vou ser breve. Sem senha, sem entrada. Falou? Pela última vez, qual é a senha?
- Ma... ri... Mariana?
- Beleza, me segue aí. Vamô que vamô!
Entraram mata a dentro por uma trilha finíssima, na qual o anãozinho se saía perfeitamente, mas ele mais parecia um gigante em Gulliver. Passaram por uma ponte que terminava com uma placa escrita à caneta pilot: Comunidade do Paraíso Astral. Aquilo não estava cheirando bem. Jorge passava lentamente da angustia para a irritação. A mata se abriu em um enorme clarão, onde havia inúmeras barracas de camping espalhadas, mulheres confeccionando colares de conchas e penteando os cabelos com os dedos, homens deitados em redes e crianças de pés descalços e corpinhos sujos. Quase uma aldeia indígena, se não fosse pela raça de seus integrantes. Procurando por Guto, não foi difícil encontra-lo em meio a uma roda de pessoas que pareciam ter acabado de servir o almoço. Pegando um toco de madeira do chão, Jorge correu até o filho, ameaçando os demais com a arma improvisada e uma ridícula posição de carateca aposentado.
- Não coma isso, Guto! Largue essa tigela no chão agora.
- Véi! Que cê tá fazendo aqui, cara?
- Vim te salvar, meu filho. Não escute o que essas pessoas estão te dizendo. Elas te enfeitiçaram. Essa gororoba aí deve estar cheia de sedativos.
- Relaxa, véi. Aqui todo mundo é da paz. A comunidade pratica o amor mútuo e incondicional, numa conectividade com a Mãe Terra e o Planeta Zyon...
- Guto, levanta! Vem, vem comigo. Ninguém se aproxima senão eu mato!
E saiu carregando o filho pelo braço, embolando-se pela mata. Levaram mais de duas horas para encontrar enfim a porteira e o carro estacionado. O anãozinho não fez mais que olhar de cara feia para os dois. Jorge dirigiu esbaforido de volta para casa, Guto não deu uma palavra. Os dois se jogaram na cama, exaustos, e dormiram até o dia seguinte. Jorge acordou satisfeito. Cutucou o filho e falou:
- Guto, hoje eu tive um sonho que me revelou a verdade. Já sei o que fazer de hoje em diante para que nossa vida dê certo. Coloca a bermuda e vamos pra praia. Mas pega uma prancha extra, porque hoje eu vou aprender a surfar com você, meu filho.
........
Alguns meses depois, Décio recebe uma ligação:
- Décio, sou eu, Guto, filho do Jorge. Você tem que me ajudar, por favor. Não aguento mais! Meu pai só quer saber de surfar, fica na praia o dia todo, não trabalha mais. O que é que eu faço, Décio?

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