Em volta do pequeno caixão branco fincado no meio da capelinha mortuária, amontoavam-se dezenas de pessoas de todas as raças, gêneros e condições sociais. Mulheres de short e chinelo contrastavam com damas de tailleur encorpado. Mãos calejadas se cruzavam em oração do mesmo modo que unhas de esmerada pintura. Prantos exagerados e desmaios súbitos de um lado, meneios de cabeça e rostos cobertos por óculos escuros de outro. O velório mais parecia uma cena de teatro burlesco.
Diante de tamanho espetáculo, Dona Joana passava despercebida, serena dentro de seu puído vestidinho azul marinho, o mesmo que usava em todos os enterros de familiares e amigos. O semblante tranquilo mostrava plena experiência em lidar com tragédias, incontáveis ao longo de seus 87 anos. Parecia compreender o sentido da morte e olhava impassível o neto jazendo em meio àquela multidão desconhecida. Só com muita observação e astúcia alguém poderia concluir que havia uma centelha de sentimento desgostoso naquele olhar quase pueril.
Ela não entendia o que tinha de diferente na morte de seu neto Renan para justificar tamanho alarido social. Tantos netos já perdera para Deus, mais novos e mais velhos do que aquele, em condições semelhantes ou piores do que a atual. E todos foram enterrados da mesma forma: com a dor dos poucos membros da família e a cerimônia do Padre Argemiro. Agora, nem mesmo o Padre Argemiro estava à frente do velório. Alguém chamara um outro padre, com voz vigorosa e batina de branco impecável, que Dona Joana nem conhecia.
Quando a multidão se cansou e resolveu se afastar do pequeno caixão, Dona Joana aproveitou para se aproximar. A poucos passos de chegar, foi impedida por um jovem engravatado cheirando a perfume caro, que sussurrou em seu ouvido: 'Dá licença, minha querida, que o senhor Prefeito está vindo. Rápido, sim? Por favor, por favor!' E Dona Joana retornou resignada para seu canto enquanto a multidão se refazia dentro da capela. Em determinado momento, teve de ceder seu banquinho de plástico para que um câmera-man conseguisse uma imagem melhor. Sentiu-se sufocar e pediu que a amparassem até o lado de fora da capela, para que pudesse tomar ar fresco. E só retornou quando avistou o Prefeito saindo, seguido de uma horda de assessores, jornalistas e pessoas bem vestidas.
A capela estava vazia em comparação aos minutos anteriores e Dona Joana foi se chegando até o caixão. Enfim, pode contemplar o rosto encerado do pequeno Renan, cujas bochechas estavam tão maquiadas que parecia ter acabado de jogar futebol com os coleguinhas. Quando Dona Joana puxou o terço do bolso do vestido para começar a orar, alguns homens se aproximaram e fecharam a tampa do caixão. Uma música triste soou e os homens saíram levando o pequeno Renan, seguidos pelo elegante Prefeito e pelo cortejo de desconhecidos. Dona Joana teve de apertar os passos dificultosos para acompanhar a comitiva fúnebre.
Chegando ao sepulcro, jornalistas se amontoaram para conseguir boas imagens, enquanto um grupo de populares gritava pela paz empunhando cartazes feitos às pressas. Diante do caixão branco, o Prefeito e seus acompanhantes enfileirados faziam cara de desolação. Dona Joana ainda não tinha conseguido chegar ao jazigo quando baixaram o caixão. Teve tempo apenas de arrancar uma pequena flor amarela que nascia entre o cimento e joga-la na cova, fazendo o sinal da cruz. E foi a única que permaneceu até o último grão de terra ser depositado sobre os restos mortais de Renan, tentando se concentrar na oração, por mais que a entrevista do Prefeito a atrapalhasse.
E quando o cemitério já estava em respeitoso silêncio e ela pode, enfim, despedir-se do neto com sinceridade, os poucos jornalistas que restavam no local prestaram atenção naquela pobre senhora de vestidinho puído. Um deles correu até Dona Joana e perguntou se ela era parente do menino morto. 'Sou a avó', disse depois de um silêncio. Então, o rapaz se ajeitou dentro do terno, contou pausadamente até três e disparou, enfiando o microfone na boca de Dona Joana: 'Estamos aqui com a avó do pequeno Renan, falecido ontem na troca de tiros entre bandidos e polícia em uma operação na favela da Sardinha. O que a senhora tem a dizer sobre tudo isso?' E ela, afastando delicadamente o microfone de seu rosto, disse baixinho: 'O Renan morreu, seu moço, só isso.'

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