quarta-feira, 18 de maio de 2011

Além da Avenida Atlântica


Já havia mais de meia hora que Dona Eulália estava na fila das Casas Lotéricas em Copacabana, apertando contra o peito suas cartelas de aposta para a Mega Sena, acumulada em seis milhões de reais. Toda vez que pensava no prêmio, tinha arrepios e roía as unhas das mãos. A pensão que recebia do falecido Tenório não era ruim, mas não lhe dava a oportunidade de, por exemplo, relaxar os fios dos cabelos rebeldes ou de ir ao cinema nos finais de semana. Fazia compras no mercado, pagava o condomínio e as contas do mês e sobrava um pouquinho de nada, que vez ou outra ela colocava em um envelope e mandava pelos Correios para o sobrinho em Aracaju. Passava as tardes fofocando com as amigas de bairro, sempre no mesmo banco da praça Serzedelo Correia. Mas sonhava em se mudar para o Leblon e almoçar nos restaurantes chiques que ela vira pela janela do ônibus, em uma das vezes que teve de levar a vizinha no hospital Miguel Couto. 'Seis milhões de reais', ela pensou mais uma vez, 'tenho que ganhar de qualquer jeito'. E sentiu o coração palpitar como as batidas das músicas que tocavam na boate embaixo de seu apartamento. Precisava se acalmar.

Havia um silêncio coletivo na fila, um clima de desconfiança mútua, como se todos se vissem não apenas como concorrentes ao desejado prêmio, mas como verdadeiros inimigos. Dona Eulália tentou puxar papo com um senhor de cabelos pintados e sobrancelha grisalha, que estava logo à sua frente, mas ele se fingiu de surdo - ou quem sabe era mesmo. Não satisfeita, virou-se para trás e perguntou as horas para uma mulher embalada à vácuo em um vestido rosa pink, na tentativa de começar um diálogo. Mas a mulher simplesmente apontou com desdém o relógio logo acima dos caixas da Casa Lotérica. Dona Eulália ainda tentou discorrer sobre o tempo, aquele calor insuportável do qual os ventiladores eram meros coadjuvantes para abafar ainda mais o ambiente. Ninguém respondeu. Então, Dona Eulália resolveu usar sua cartada de mestre, que nunca falhava. Se era para jogar sujo, melhor que fosse por um bom motivo. E que melhor motivo do que seis milhões de reais? Ajeitou o grampo que soltava dos cabelos, pigarreou para limpar a garganta e disparou ao léu:

Copacabana é uma loucura. Já repararam no trânsito ultimamente? É uma terra de Marlboro, minha gente! Se vocês moram por aqui, sabem do que estou falando. Quantos acidentes vocês presenciam por semana? Eu morro de medo. Fico aqui nessa fila na calçada, mas morro de medo. Esses dias eu vi um homem ser atropelado na fila do INSS. Vê se pode, coitado! A gente tem que tomar o maior cuidado e ter bons reflexos para se esquivar de um carro desgovernado. Cansa de acontecer por aqui. Eu vejo toda hora da minha janela. Por isso não saio muito de casa. É um perigo, um pe-ri-go!

As pessoas da fila já começavam a se remexer, olhando vez ou outra para Dona Eulália, curiosos com aquela narrativa. Alguns tomaram um leve susto quando um carro parou para estacionar enquanto ela falava. Um ou outro concordou com a cabeça. E Dona Eulália, visivelmente insatisfeita, continuou:

- E as mulheres da vida? Meu Jesus amado, é uma vergonha! Na minha igreja falam tanto... Elas ficam passeando por aí, exibindo o corpo com umas roupas que, valha-me Deus, não tapam nem o que deviam tapar. Culpa desses turistas! Fica essa pouca vergonha aos olhos das pessoas de bem, das pessoas corretas. Roubam os maridos da gente, tentam os nossos filhos. E a gente ainda tem que fingir que é tudo normal. No meu prédio dizem que mora uma, pode? E eu acho que mora mesmo, porque escuto uns barulhos, uns gritos, sabe? A gente tem que conviver com elas em qualquer lugar. Onde é que nós estamos? Onde está nossa moral?

Um clima de desconforto começava a se formar. A mulher de vestido pink cruzou os braços, bamboleou os quadris e foi embora batendo forte com o salto na calçada de pedras portuguesas, para a felicidade de Dona Eulália. Quatro mães deixaram a fila revoltosas, tapando os ouvidos das crianças. Mais confiante, a língua afiada não parou:

- Os trombadinhas estão cada vez mais ousados. Esses dias, quando fui fechar a janela, tinha um marmanjo quase entrando na minha sala. É mole? Aqui ainda é pior, porque não tem policiamento. A senhora já viu algum policial por essas bandas? Não? E o senhor? Pois é, estou falando! Eu não vi um policial sequer enquanto estava aqui na fila. E trombadinhas, quantos vocês viram? Uma porção, né? Eles vivem em bando, mas atacam solitários. Olha um ali! Outrozinho lá do lado da igreja. Tá cheio! Se eu fosse a senhora, não andava com esse colar. A bolsa, também, a bolsa é um perigo. Só debaixo do braço. E o senhor, com esse celular na cintura: é tesouro pra Ali Baba. Essa fila aqui é um prato cheio pra eles. Copacabana está assim, não se pode mais andar sossegado.

Inconscientemente algumas mulheres puxaram as bolsas para mais perto do corpo. O senhor colocou discretamente a blusa por cima do celular. Cerca de meia dúzia de pessoas, com olhos arregalados, saíram da fila andando apressadas. Resoluta, Dona Eulália continuou, mais ousada:

- Trombadinha é pouco. E a bandidagem que desceu os morros? Agora, meus amigos, a gente está à mercê de ex-traficantes que não têm de onde tirar dinheiro e vêm fazer o salário com a gente. Vieram para Copacabana, por causa dos turistas. Mas o morador é que sofre. E dinheiro não é nada, eles querem mais! Estão com tanta raiva que não se contentam só em nos assaltar. Eles torturam, estupram e até matam. Nesse exato momento deve ter algum só de olho na gente, escolhendo a próxima vítima. Eu bem que sei!

Mais um punhado de pessoas deixou a fila, que diminuiu consideravelmente desde que Dona Eulália começara a falar. Só restavam, parcamente enfileirados, aqueles que não se abalaram com suas constatações, provavelmente moradores de Copacabana tão antigos quanto ela, acostumados e resignados com as chagas do bairro. Ela poderia muito bem se considerar satisfeita com o resultado, mas queria que  todos fossem embora e a deixassem apostar sozinha. Aqueles seis milhões de reais seriam uma dádiva e realizariam seu sonho de morar no Leblon. Faria qualquer coisa para ganhar o prêmio. Mas seria difícil vencer aquele grupo de 'cascas grossas', como ela mesmo se denominava. Pensou por instantes o que poderia falar de tão incomum para afasta-los dali. Então, veio-lhe a luz. Respirando fundo, Dona Eulália decidiu usar um golpe baixo e, antecipando a vitória com um meio sorriso, não hesitou:

- E os bueiros que explodem?


Não precisou terminar. Entrou contente e exultante para fazer suas apostas, sem viva alma a seu redor. Quem a olhasse, diria que acabara de ganhar na Mega Sena.

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