domingo, 15 de maio de 2011

Ladeira do Sol

Desce a ladeira correndo, de olhos fechados e sorriso largo no rosto ainda amassado do sono. Sente o vento frio de uma manhã que ainda não raiou na favela. Não vê a hora de aparecer o sol. Corre cada vez mais rápido, sem medo de cair, achando que pode voar. Só abre os olhos quando tropeça em alguém e escuta um palavrão. Não pede desculpas, retruca com outro impropério, o mais sujo que encontra em seu vocabulário pouco extenso. Mostra o dedo do meio e sai correndo outra vez, ainda sorrindo. 


Tem apenas seis anos, mas se acha o dono da verdade. Ninguém era páreo para aquele pingo de gente que fazia o que queria. Não tinha jeito, as pessoas comentavam. A avó tinha certeza de que ele era filho do Demo e benzia o garoto com um pavor explícito no rosto cansado: 'que Jesus te proteja, menino, das coisas ruins que te cercam'. Muita coisa ele não entendia, mas tinha certeza de que um dia iria entender.

Chega ao ponto do ônibus e coloca a camisa da escola pública pelo avesso. Limpa o nariz escorrendo com a gola alargada e rasgada. Faz sinal para o ônibus, que não pára. Nunca pára. Xinga baixinho e chuta uma pedra perdida no asfalto. Dá a língua para um menino mais novo e faz careta. Ouve o estômago roncar e ri baixinho. Tenta imitar o barulho, mas não consegue. Lembra que, se não chegar a tempo, vai perder o café da manhã na escola. Resolve ir andando, está com fome. 

Observa o sol saindo de trás de um barraco no alto da favela. Era lindo, ele achava. Um dia ainda seria o dono daquele morro todo e pegaria o sol só para ele. Ai de quem duvidasse. Senta no chão de terra e risca uma cruz com precisão infantil. Lembra-se da mãe e das surras que levava de madrugada, quando ela voltava bêbada da rua. Só paravam quando o sol aparecia. Olha para as cicatrizes nos braços. Esfrega as marcas com toda a força até ficarem vermelhas. A mãe nunca saía do corpo dele. Um dia a avó disse que ela virou uma estrelinha no céu. Então ele nunca mais gostou da noite, só do dia e do sol. Tinha raiva, muita raiva. De todo o mundo, menos da avó. Ele não entendia, mas tinha muita raiva.

Deita no chão e toma um punhado de terra nas mãos. Lentamente, vai soltando os grãos sobre os cabelos em carapinha. Pega mais um punhado de terra, dessa vez maior. Fecha os olhos e esfrega as mãos empoeiradas pelo rosto, quase em transe, como uma espécie de ritual. Sente-se sufocar e tosse. Depois cai na gargalhada. Levanta-se e volta a andar. 

Chega à escola e o inspetor o arrasta pelo braço. Reconhece a sala da diretora. Espera sentado no banco de madeira quebrado. Esmaga uma pequena aranha com o dedo indicador e ri. Depois prova o sabor do animal morto e faz uma cara feia. A diretora chega e começa a falar: sujeira, piolhos, camisa rasgada, nariz escorrendo, chinelos, blá, blá, blá. Ele pergunta se já pode tomar o café da manhã. 'Você não entende? Sua mãe não te dá educação?' O pequeno se ergue como um gigante e, fora de si, dispara socos contra o abdome da mulher insolente. Sai correndo, esquiva-se do inspetor e põe-se em disparada para fora dos muros da escola. Não, ele não entende. Mas um dia vai entender.

Corre de olhos fechados pelo meio da rua até se cansar. Tira a camisa da escola e a joga em um terreno baldio. Abre a pequena mochila e despeja todo o material em cima da calçada, enquanto anda de volta para casa. De peito nu, sobe devagar a ladeira da favela. Olha para os últimos barracos no topo do morro e decide: vou pegar o sol. Dessa vez não tem pressa, caminha olhando com fascínio para o astro luminoso, como se estivesse hipnotizado. Só volta a si quando ouve o som saindo de suas entranhas. A fome tentando falar. 

E quando consegue chegar bem no alto, onde jamais estivera antes, percebe que o sol não está mais lá. Em seu lugar, observa vários homens e meninos, passeando orgulhosos com suas armas. Reluzentes, grandes e potentes como o sol. Assustado e curioso, o menino senta na calçada. Um dos homens armados se aproxima, passa a mão em sua cabeça e solta uma grande gargalhada amistosa. Todos os outros se voltam para o menino e sorriem, alguns acenam. Um adolescente magro retira os óculos escuros da própria testa e os coloca no rosto do garoto. 'Toma cuidado com o sol, moleque. Ele pode te cegar.' Foi então que o menino entendeu tudo. E nunca mais esqueceu.




* Quadro de Vanessa Lima (http://vanessalimaportaldearte.blogspot.com/)

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